top of page

O primeiro herói olímpico do Brasil

27 de mar. de 2025
9 min de leitura

Por Ana Miragaya e Lamartine DaCosta


Em junho de 2025 comemoramos os 120 anos da outorga do Diploma de Mérito Olímpico a Alberto Santos=Dumont. Dessa forma, o pai da aviação e patrono da Força Aérea Brasileira foi o primeiro herói olímpico do Brasil.

Sim, Alberto Santos=Dumont* foi agraciado com um dos primeiros Diplomas Olímpicos outorgados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), durante o Congresso Olímpico de Bruxelas, de 9 a 14 de junho de 1905. Qual a razão dessa honraria? A história de Alberto Santos=Dumont esportista não é muito conhecida. É uma história bastante interessante, que convidamos você a conhecê-la, a começar pelo Diploma Olímpico, representado abaixo, e noticiado no jornal Correio Paulistano, apresentado a seguir.


Diploma Olímpico outorgado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), presidido à época por seu fundador, o barão francês Pierre de Coubertin (1863-1937), a Alberto Santos=Dumont*, em 1905, durante o Congresso Olímpico, na Bélgica, por seus feitos no nascente esporte da aviação. 

*Alberto Santos=Dumont adotou o sinal de igual em seu nome para significar que sua ascendência francesa se equiparava à sua ascendência portuguesa e brasileira.

 


O jornal “Correio Paulistano”, de São Paulo, com data de 21 de junho de 1905, acima, apresenta notícia sobre a concessão do Diploma Olímpico a Santos=Dumont pelo Congresso do COI em Bruxelas. Entretanto, Santos=Dumont não compareceu à cerimônia, fazendo-se representar por seu amigo, o embaixador do Brasil na Bélgica.


Na realidade, a outorga do Diploma Olímpico a Santos=Dumont pelo barão francês Pierre de Coubertin (1873-1937), fundador e presidente do COI (1894), foi um ato de reconhecimento pelo que nosso herói representou para a aerostação, o nascente esporte da aviação, e para o esporte em geral. A aerostação é atividade ligada aos aeróstatos, ou seja, aeronaves mais leves que o ar: inicialmente os balões e, logo em seguida, os dirigíveis. A aviação abrange aeronaves mais pesadas que o ar, como o 14 BIS, de Santos=Dumont, em 1906, o primeiro avião do mundo. 

É preciso então lembrar a trajetória de Santos=Dumont, a quem Pierre de Coubertin, também residente em Paris, contemporâneo de Santos=Dumont, julgou merecedor não somente por suas qualidades como sportsman da aerostação, mas também, e especialmente, por suas atitudes em competições esportivas e na sua vida em sociedade. 

Santos=Dumont valorizava a vitória pelo seu próprio esforço, aceitava suas derrotas, especialmente quando tinha acidentes e quando as experiências não davam certo, pautava-se pela ética para atingir seus objetivos, mirava a excelência, tinha persistência para ir em frente com determinação e coragem, além de praticar e incentivar o'entendimento entre as pessoas, a solidariedade, a amizade e o fair play, características do Espírito Olímpico.


Pontos essenciais de Santos=Dumont como esportista olímpico:


1. Amadorismo: Santos=Dumont verdadeiramente preenchia os requisitos de um esportista amador, que não vivia dos prêmios que recebia e muito menos quis patentear suas invenções. O jovem Alberto herdou uma fortuna de seu pai com sua emancipação aos 18 anos de idade, investindo os valores e deles vivendo, sem precisar trabalhar.Santos=Dumont se coloca bem claramente, em seu primeiro livro, como amador, aquele que pratica o esporte pelo esporte, referindo-se sempre aos outros aeronautas como profissionais. Lembrando que o COI valorizava e cultivava o esporte amador naquela época. 

 

2. Sportsman. O próprio Santos=Dumont se considerava um sportsman, da Belle Époque (1890-1914) na Europa. É importante lembrar que a palavra sportsman, ou esportista, em português, significava no final do século XIX e início do século XX um indivíduo que praticava e se dedicava a um esporte mostrando respeito e igualdade com relação aos adversários, praticante do fair play. Era muito chique ser um sportsman, especialmente se pertencesse a um clube.

 

3. Associação com clubes. Os clubes esportivos constituíram apoios importantes para Santos=Dumont, primeiramente como legitimadores de seus feitos aeronáuticos e, posteriormente, como meio de relacionamento na sua vida social e esportiva. O Aero Club de France, cofundado pelo próprio Santos=Dumont, em 1898, e o Aero Club do Reino Unido mantiveram vínculos bem próximos e constantes com o aviador esportivo brasileiro durante sua fase de grandes realizações (primeira década de 1900). 

 

4. Praticante de esportes. Santos=Dumont praticou inúmeros esportes, desde a infância, como equitação, esqui, ciclismo, tênis, entre outros, além de incentivar as pessoas a praticarem esportes.

 

Automobilismo: encantado com a tecnologia e inovações de sua época, Santos=Dumont desenvolveu paixão pelos automóveis e com eles disputou muitas provas. Aliás, o Santos=Dumont foi a primeira pessoa a trazer um carro para o Brasil. Santos=Dumont participou da corrida Nice - La Tourbie em 1899, cerca de 17km. Essas corridas contribuíram para o aperfeiçoamento dos motores movidos a petróleo. Santos=Dumont ficou em 3º lugar, já participando de corridas internacionais de automóveis. Assim sendo, conclui-se que Alberto Santos=Dumont foi não somente o 1º piloto automobilista brasileiro, mas também o 1º piloto brasileiro a participar do que chamamos hoje de pódio, com medalha de bronze numa corrida automobilística internacional. 

 

Motociclismo: em 1898 Santos=Dumont comprou um motociclo, passando também a se dedicar às competições de motos triciclos, que haviam virado moda em Paris. O próprio Santos=Dumont instituiu corridas com prêmios oferecidos por ele mesmo, inclusive alugando o velódromo Parc des Princes para um torneio numa tarde de domingo, que segundo ele próprio foi um sucesso. Suas observações e experiências com motores, que vinham de sua infância, mexendo nas máquinas da fazenda de café de seu pai, em Ribeirão Preto, ele se tornou exímio mecânico e extraordinário ouvinte dos barulhos dessas máquinas. O conhecimento adquirido através do estudo e manejo da mecânica dos automóveis e das motos triciclos foi essencial para Santos=Dumont construir suas aeronaves. Santos=Dumont tinha o perfil de competidor, participando  de concursos, prêmios e torneios, e também  instituindo eventos a partir de seus próprios recursos.

  

Aerostação: Tornando-se aficionado à tecnologia e à inovação, ao automobilismo e motociclismo, aos poucos Santos=Dumont foi desenvolvendo a aerostação. Aconstrução inicialmente de balões e depois de dirigíveis foi tomando cada vez mais espaço na agenda de nosso piloto, que foi se inscrevendo e participando de competições que ofereciam prêmios, como ocorre nos esportes de uma maneira geral. Seu interesse pelas provas e desafios da aerostação era tão grande que, em outubro de 1898, Santos=Dumont ajudou a fundar o Aeroclube de França (AeCF) como uma associação, cujo objetivo principal era incentivar a locomoção aérea. Com organização e planejamento de competições, o Aeroclube difundia o esporte aerostação tanto que, em 1900, já contava com 400 membros. Várias competições foram instituídas. A primeira delas foi a Taça dos Aeronautas, em 1899, para balões livres. Santos=Dumont se inscreveu e participou, tirando o 4º lugar numa prova de percurso com o balão esférico América (L’Amerique), descendo no Jardim des Tuileries, que ficava a 325 km do ponto de partida. Com o mesmo balão tirou o 1º lugar em tempo de permanência no ar: 22 horas. Esse feito fez com que seu nome aparecesse na imprensa internacional, tendo cada uma de suas conquistas sendo noticiada, comentada e documentada, com a imprensa esportiva francesa destacando a aerostação com um esporte. 

 

5. A torcida. É necessário lembrar que a vitória e o prêmio fazem parte do esporte da mesma forma que a torcida. E a torcida de nosso herói era o povo, como ele menciona em seus livros. A plateia com muitos espectadores estava sempre presente nas demonstrações de Santos=Dumont. Ele avisava aos jornais do dia e hora em que faria demonstrações e que participaria de competições. Até a princesa Isabel fazia parte da torcida de Santos=Dumont, tendo dado a ele uma medalha de São Benedito, protetor de acidentes, por conta da queda do nº 5  numa árvore próximo ao palácio de sua residência, em julho de 1901.

 

6. A vitória. A felicidade com que Santos=Dumont vivenciava suas sucessivas vitórias em seus experimentos com certeza traduz o sentimento dos vitoriosos do esporte, do heroi que luta pela vitória. O esporte exige competição e “grande honra ao vencedor”. Isso seduzia Santos=Dumont imensamente, Por outro lado, as derrotas, os acidentes causados por seus experimentos, não abalavam seu espírito esportivo. Ele se levantava e ia em frente, para a próxima tentativa. 

 

7. O risco. Para nosso herói olímpico, o esporte implicava situações de risco e de perigo. Na realidade, o esporte lida com a adrenalina dos esportistas. Não existe competição sem riscos e Santos=Dumont sabia muito bem disso. Dessa forma, hoje, podemos supor que a aerostação era, no final do século XIX e início do século XX, um esporte radical, o que torna Santos=Dumont o primeiro esportista radical brasileiro.Essencial mencionar que na maior parte das vezes Santos=Dumont saía ileso dos acidentes para tentar as provas novamente, sendo bastante admirado por sua coragem, ousadia, perseverança e genialidade. 


8. Fair play. Como competidor, ele sempre visava o fair play, ou seja, que todos competissem dentro das mesmas condições. Nosso herói era um portador de valores, o que chamava bastante a atenção de jornalistas, do público em geral, da elite europeia, dos aeronautas profissionais e de autoridades. Levando-se em conta o ideário olímpico, as atitudes de Santos=Dumont se coadunavam com a tradição inglesa que se estendeu ao continente europeu. Por esta razão Pierre de Coubertin aduziu à expressão um sentido de espírito, de ética e de exemplo, dentro do figurino histórico olímpico. 

 

9. Registros. Santos=Dumont vivenciou a aerostação/aviação como prática de esporte amador sempre buscando legitimar os recordes de suas performances com audiência pública, árbitros e resultados mensuráveis. A presença de público é uma constante nos esportes. Santos=Dumont era extremamente conhecido por seus feitos em Paris, especialmente, mas em toda a França, na Europa e em outras partes do mundo.

 

10. Estilo e marketing pessoal. Nosso herói brasileiro ditava moda de roupas(colarinhos altos, ternos risca de giz, chapéu amassado e sem abas), tinha estilo próprio (cabelo repartido ao meio) e criava objetos para a prática da aviação como esporte, todos originais. Destacam-se o chapéu panamá, seu símbolo inconteste, e o relógio de pulso encomendado, em 1904, originalmente, por ele, à Maison Cartier de Paris. O design esportivo, a marca “Santos Dumont” e sua comercialização sobrevivem há mais de 120 anos. No início do século XX os homens usavam o elegante relógio de bolso, que causava dificuldades aos pilotos de aeronaves. Santos=Dumont pediu então a seu amigo, Louis Cartier para desenvolver um relógio mais prático, que ficasse amarrado no punho. Foi então criado o primeiro relógio de pulso masculino, que recebeu o nome de Santos, em homenagem a Santos=Dumont. É importante lembrar que naquela época os relógios eram tratados como joias e objetos de arte.

 

11. A imprensa como parceira. Santos=Dumont aparece com bastante destaque em revistas especializadas em esportes e publicadas em Paris no final do século XIX e início do XX, como “La Vie au Grand Air” e “Le Sport Universel Illustré”, tornando-se muito famoso. Estas publicações registraram detalhadamente as conquistas de Santos=Dumont, sempre relacionadas ao mundo esportivo em Paris e na França. Sua visibilidade o tornou uma celebridade, e ele sabia disso, tanto é que se utilizava dela para a promoção de seu esporte predileto: a aerostação/aviação. Como um esportista modelo, ele queria publicidade para seus feitos e nisso a  imprensa esportiva da época tornou-se sua parceira, como ele mesmo menciona em seus livros.

 

12. Rede de contatos. Ao longo de sua carreira, Santos=Dumont construiu uma poderosa rede de contatos. Ele conheceu e conviveu com a elite parisiense e grandes personagens da história, como a princesa Isabel, os inventores americanos Thomas Edison e Graham Bell, além do presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt. Seu hangar, aliás, também inventado por ele, recebia visitas de amigos como Louis Cartier, personalidades como o rei da Bélgica, Leopoldo II; a imperatriz Eugênia, viúva de Napoleão III; Afonso XIII, o rei da Espanha;  além de curiosos  e o povo em geral. 

 

13. Escritor. O livro escrito por Santos=Dumont, “Dans l’Air”, em francês, e publicado em 1904, tornou-o ainda mais conhecido na França, e em Paris, onde morava. Nessa obra ele se dirige à aerostação como esporte. 

 

Em suma, o Santos–Dumont “olímpico” como figura pública realmente existiu por suas atitudes de gentleman e comportamento de fair play, como um sportsman, sua ligação com clubes esportivos e sua devoção à causa popular pela prática de esportes. É possível então inferir que Santos-Dumont muito contribuiu para o legado intangível relacionado aos valores esportivos de sua época e que não foram cultivados ao longo dos anos e das sucessivas edições dos Jogos Olímpicos da mesma forma em que foi “esquecido” pelos historiadores enquanto sportsman e cultor do Esporte para Todos.


ANEXO

 

Santos=Dumont não compareceu à cerimônia de entrega de seu Diploma Olímpico em Bruxelas, em 1905, que foi entregue a seu amigo, o embaixador do Brasil na Bélgica. Não houve interação entre Alberto Santos=Dumont e Pierre de Coubertin.  Por não haver acontecido essa oportunidade de convivência entre os dois protagonistas, a Comissão Organizadora do lançamento do livro “Santos=Dumont, Aviador Esportista: o Primeiro Herói Olímpico do Brasil” convidou os descendentes mais diretos de Pierre de Coubertin e de Alberto Santos=Dumont, através do Comitê Internacional Pierre de Coubertin, Comitê Olímpico Internacional e da Força Aérea Brasileira, os sobrinhos bisnetos, Yvan de Coubertin e Alberto Dodsworth Wanderley, para a cerimônia que ocorreu no Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica no dia 4 de agosto de 2016, às vésperas da Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos Rio-2016. Nessa oportunidade, o sobrinho-bisneto de Coubertin deu ao sobrinho-bisneto de Santos=Dumont uma placa de prata em comemoração a esse encontro histórico.



FOTO: Sobrinho bisneto de Pierre de Coubertin, Yvan de Coubertin, entregando a placa ao sobrinho bisneto de Santos=Dumont, Alberto Dodsworth Wanderley,  em cerimônia de lançamento em 4 de agosto de 2016.

Fonte: Acervo pessoal.



Foto: Placa de prata entregue ao sobrinho-bisneto de Alberto Santos=Dumont pelo sobrinho-bisneto de Pierre de Coubertin, Yvan de Coubertin, com os dizeres: “O Comitê Internacional Pierre de Coubertin por ocasião dos Jogos Olímpicos Rio 2016, reverencia o primeiro heroi olímpico brasileiro Alberto Santos Dumont, esportista e aeronauta, agraciado com o Diploma Olímpico Internacional, pelo COI, em 1905, e saúda o Comando da Aeronáutica como guardião desta memória.” Rio de Janeiro, 4 de agosto de 2016 Fonte: Acervo pessoal.





 
 
 

1 comentário


soicauxsmb24.com hôm trước mình lướt thấy ai đó nhắc nên vào nghía thử cho biết, kiểu xem giao diện họ làm ra sao thôi. Vừa mở lên là thấy bài soi cầu theo ngày hiện rõ ngay tiêu đề, kiểu “Soi cầu MB ngày 3 9 2026” nên không phải đoán đang nói ngày nào. Mình cũng để ý phần dự đoán XSMB hôm nay họ tách riêng thành mấy khối ngắn, nhìn lướt là nắm được ý chính chứ không bị dính một cục chữ dài. Cuộn xuống đọc trên điện thoại vẫn ổn, chữ chia đoạn dễ theo dõi. Nói chung cảm giác trang gọn gàng, nhất là mấy heading ngày tháng đặt ngay đầu bài nên nhìn…

Curtir

Contato  

Bruxellas Produções

Tel. +55 21 983740568

sportsm.bruxellas@gmail.com

Horário

Seg - Sexta 11:00 - 18:30

Saturday 11:00 - 17:00

Sunday 12:30 - 16:30 

 

Fale
com a gente:)

Obrigado(a)

bottom of page